O Nobel e a superioridade racial


Salem Nasser

22/08/2013



Há muitos anos, a Folha levou ao ar uma campanha publicitária brilhante. Enquanto a câmera se afastava para gradualmente nos mostrar um rosto, o locutor contava, em números, os grandes feitos do homem retratado. Quando ao final se revelava a face de Hitler, o narrador dizia: "É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade!".

Hélio Schwartsman trouxe, em "Demografia do Nobel", números que devem ser verdadeiros. Mas há algo não confessado por trás deles.

Ele abre o texto com uma pequena ironia. Conta que, se Richard Dawkins tivesse comparado, em um tuíte, o número de muçulmanos vencedores do prêmio Nobel com o de judeus, em vez de fazê­lo com o de membros do Trinity College, teria estragado o Eid al­Fitr e feito descarrilar as negociações entre israelenses e palestinos.

É preciso estar muito concentrado no próprio umbigo para imaginar que pela mente de 1,3 bilhão de pessoas, no momento de festejar, como ocorre há 1.400 anos, o fim de seu mês mais sagrado, passaria um senhor chamado Dawkins ou a contabilidade das decisões que alguém toma na Suécia.

E dizer que as negociações de paz estariam à mercê de se ativar um complexo de inferioridade dos palestinos ­­enquanto majoritariamente muçulmanos, imagina­se­­ e não da continuidade da ocupação nos deixa entrever a agenda política a que serve o autor.

Os números que apresenta aparecem amiúde em campanhas que tentam justificar o apoio a Israel e comprovar a inferioridade e a baixeza dos árabes e muçulmanos.

Mas para nos fazer beber, sem saber, seu argumento, ele percorre um caminho com cuja metodologia nenhum dos cientistas que tenham merecido seu Nobel concordaria.

Schwartsman lamenta que o fenômeno que conteria as chaves da explicação, o das diferenças biológicas, não seja estudado por ser presa de um terreno politicamente minado, de um tabu que a academia não ousa enfrentar.

Dawkins, em seu ataque ao islã e aos muçulmanos, não mencionava, no espaço de um tuíte, o argumento biológico. É Schwartsman quem quer elevar a biologia à condição de resposta para o Nobel.

Ele funda seu argumento em conclusões, que considera interessantes, de um estudo sobre a inteligência dos judeus ashkenazi.

O equívoco metodológico grosseiro está em que, ainda que pudesse ou possa haver resposta biológica para a inteligência de um grupo definido biologicamente, seria preciso poder comparar biologia com biologia.

Qual é exatamente a biologia dos membros do Trinity College? E o que dizer da biologia dos muçulmanos, que estão em todos os lugares, distribuídos em povos e etnias as mais diversas? E mais, o que terá acontecido à biologia dos muçulmanos entre a Idade Média, quando, segundo Dawkins, eles fizeram grandes coisas, e os dias que correm?

Nenhuma história, nenhuma sociologia, nenhuma ciência política para explicar os números. Apenas o fator biológico.

Ao afirmar a superioridade biológica de um grupo ­­em essência é o que faz, ainda que não tenha tido a coragem de encarar de frente o tabu­­, Hélio Schwartsman coloca seu discurso a serviço de uma agenda política de dominação.

Resta saber se não se aprendeu nada com o senhor com que abri este texto, sobre o uso que a humanidade pode fazer desse tipo de tese e desse tipo de discurso.

SALEM HIKMAT NASSER, 46, é presidente do Instituto da Cultura Árabe. *

http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2013/08/1329997­salem­h­nasser­o­nobel­e­a­superioridade­ racial.shtml


Links no texto:

"Demografia do Nobel"
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2013/08/1324396­demografia­do­nobel.shtml

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