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Sobre notícias e manchetes
22/05/2019


O exemplo que ilustra a tese: nesta quarta, 22 de maio de 2019, a Folha de São Paulo traz matéria cuja manchete é “EUA suspeitam que Síria tenha realizado novo ataque químico”. A matéria não é produção própria; como tantas outras publicadas no nosso noticiário internacional, é retomada de grandes agências de notícias, elas também internacionais.

 

A primeira coisa a dizer é que nem a Folha nem as agências podem saber de que os Estados Unidos de fato suspeitam, especialmente a partir do que depois se revela como a essência da notícia. Elas podem no máximo saber o que os Estados Unidos dizem ser uma suspeita. Você, leitor, percebe que a mensagem seria diversa se a manchete dissesse “EUA dizem suspeitar....”?

 

O parágrafo de abertura se lê assim: “Os Estados Unidos têm indícios de que a Síria esteja utilizando armas químicas e tenha realizado um ataque com cloro no último domingo (19), no noroeste do país, afirmou o Departamento de Estado nesta terça-feira (21)” Você leitor acredita que a notícia seria lida de outro modo se o “afirmou o Departamento de Estado” abrisse o parágrafo em vez de fechá-lo?

 

A segunda coisa a dizer é que não há uma menção sequer, na notícia de hoje ou na grande imprensa nos últimos dias, a um fato relacionado e relevante: o vazamento de um relatório da OPCW (Organização para a proibição das armas químicas), responsável por verificar o uso de armas químicas na Síria. O relatório vazado trazia conclusões que negavam a conclusão de que teria sido o governo Sírio o responsável pelo ataque a Douma em abril de 2018.

 

Evidentemente, toda guerra conhece uma luta paralela pelo domínio das narrativas, uma guerra de propaganda. As acusações de uso de armas químicas pelo governo são centrais para a percepção do que se passava ao longo dos anos de conflito e crise humanitária na Síria. Como é possível conhecer a verdade se o que os Estados Unidos dizem é descrito com fato e aquilo que poderia negar ou questionar o que eles dizem sequer aparece no radar de quem nos informa?

 

Inclusive, alguém deveria desconfiar do timing da suposta suspeita americana, justamente nos dias em que aqui e ali aparecia a notícia do vazamento do documento e de seu conteúdo.

 

A terceira coisa a dizer também tem a ver com timing: o avanço das forças governamentais em direção a Idlib, no norte da Síria, lugar para onde convergiram rebeldes armados enquanto se retiravam de outras regiões que iam sendo retomadas pelo governo. Essa batalha, opondo o governo e seus aliados de um lado, e os grupos armados apoiados pela Turquia de outro, será decisiva para a resultante final desse grande braço-de-ferro pelo destino da Síria.

 

Os Estados Unidos, em alguma medida impotentes diante do avanço de seus opositores, podem estar recorrendo mais uma vez ao fantasma do ataque químico para frear o avanço e talvez justificar algum uso da força contra os sírios.

 

É difícil aprender algumas lições se a nossa imprensa não estiver disposta a um pouco mais de curiosidade e crítica.



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