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A libertação da infância
25/05/2020

 

Algumas das primeiras memórias de minha infância têm por cenário o Sul do Líbano. São algumas das mais importantes também.

 

Dos seis aos oito anos vivi entre as aldeias de origem da minha família e a cidade de Marjayoun. Aquelas aldeias, predominantemente xiitas, em que o essencial da população fazia ainda a transição entre a pequena agropecuária de subsistência e as transformações da alfabetização, da educação, do trabalho na cidade ou da imigração para a América, para a África. E aquela bela cidade, predominantemente cristã ortodoxa, tinha uma história cuja riqueza era atestada pela arquitetura, pela educação de seus habitantes e seus emigrados, pelas escolas e igrejas.

 

Entre umas e outra, experimentei no rosto a sensação única do vento que viaja as montanhas do Líbano, conheci a neve, o frescor e o calor sufocante que se pode sentir naquela geografia pedregosa. Experimentei também, em cenas e anedotas típicas da infância, a natureza das relações entre os grupos religiosos libaneses e as características que todos eles compartilham na sua identidade comum. Foi ali que vivi as fantasias das lendas árabes que se misturavam aos relatos heroicos da aldeia e da família; mas também ali comecei a experimentar a vergonha das derrotas árabes e a tragédia palestina, além do medo dos aviões israelenses que um belo dia transformaram em trauma a experiência incrivelmente gostosa dos piqueniques libaneses.

 

Minha experiência naquela geografia se interrompeu com o começo da guerra civil libanesa e com minha volta ao Brasil e ao Paraguai. A partir daquele momento a minha vivência do Líbano misturaria as memórias daqueles dois anos marcantes e as notícias das tragédias familiares e nacionais na guerra. E de 1982 em diante, às tragédias se somaria uma nova, de enorme envergadura, aquela da invasão israelense do país e logo a sua permanência naquele Sul da minha infância como potência ocupante.

 

Desde então, quando ia ao Líbano, só podia recuperar parcialmente as sensações e as experiências daqueles tempos, já que grande parte da sua geografia me estava proibida, a não ser que eu aceitasse a humilhação de pedir licença aos israelenses para circular pela minha própria casa. Eu podia me poupar dessa humilhação, ainda que não pudesse escapar à vergonha de saber que muitos dos meus a viviam cotidianamente, encarando a derrota para um inimigo arrogante, um ocupante que se tinha por invencível. E havia também a vergonha de saber que parte dos libaneses se aliou a esse inimigo e se associou a ele na imposição do arbítrio contra seus concidadãos.

 

Ao longo dos anos, tinha-se aqui e ali notícias daqueles que, acreditando que era possível sim resistir a essa força tida universalmente como imbatível, pagavam caro em sangue o preço de uma futura libertação da terra. De longe, eu testemunhava a firmeza com que esses resistentes mantinham a disposição para o sacrifício ao mesmo tempo em que sofisticavam os seus instrumentos, suas táticas, em que aprendiam e planejavam.

 

Até que em 25 de maio de 2000 eu e o mundo fomos surpreendidos pela pressa com que os israelenses fugiam assustados do Líbano, abandonando armas, munições e instalações, para não falar de seu exército de colaboradores libaneses; e testemunhamos boquiabertos as cenas dos soldados do exército imbatível que, tendo cruzado a fronteira e fechado atrás de si as porteiras, ligavam para as próprias mães chorando lágrimas de alívio por estarem vivos.

 

Esse dia marcou a primeira vez em que Israel abandonou sob a força das armas e o desgaste das perdas militares um território ocupado. Marcou o renascimento da esperança de novo começo para a dignidade, de uma possível vontade de poder, de um futuro de vitórias e de um estancamento do tempo das derrotas.

 

Para mim, à distância de milhares de quilômetros, parecia de repente possível respirar novamente com leveza aqueles mesmos ares frescos e puros do Sul do Líbano, agora novamente orgulhosos e cheios de brio. E claro, a partir desse dia o bom e o mau daqueles anos de minha infância estavam novamente livres para voltarem à minha memória e à minha fantasia sem qualquer marca de vergonha. Eu agora podia pisar a terra desse Sul, olhar através da cerca e encarar esse inimigo que agora teme a terra e seu povo e quer tudo menos tentar pisá-la novamente.

 

Hoje faz vinte anos que a libertação se deu. Vinte anos que aquele manto de humilhação foi levantado e substituído por uma dignidade alegre e ousada. O custo disso foi enorme em sacrifícios tantos e eu me inclino diante de todos o que tiveram a coragem de pagar o preço.

 

P.S. Para os que quiserem ler algo além da dimensão pessoal da experiência, aqui vai uma lição com alcance mais genérico: a libertação do Sul do Líbano e tudo que aconteceu desde então no Oriente Médio, incluída a guerra de 2006, as guerras contra Gaza, e incluídos os desenvolvimentos dos chamados processos negociadores entre israelenses e palestinos, ensinam que só a resistência, em todas as suas formas, apresenta alguma esperança.



1967
05/06/2020

 

Não tenho memória do tempo de meu nascimento.

 

Com o tempo, no entanto, fui me entregando a esta tendência – não sei se ela atinge a todos, a muitos, ou a alguns poucos de nós – de estabelecer ligações entre a nossa vinda ao mundo e outros grandes eventos que o agitaram no mesmo momento ou lugar.


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