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1967
05/06/2020

 

Não tenho memória do tempo de meu nascimento.

 

Com o tempo, no entanto, fui me entregando a esta tendência – não sei se ela atinge a todos, a muitos, ou a alguns poucos de nós – de estabelecer ligações entre a nossa vinda ao mundo e outros grandes eventos que o agitaram no mesmo momento ou lugar.

 

Reconstruo a cena essencialmente assim: havia tristeza e uma pesada sensação de derrota à minha volta. Eu talvez tenha surgido como uma alegria bem-vinda e em alguma medida compensatória.

 

Meu pai e seus irmãos tinham recebido há pouco a notícia da morte do meu avô paterno. Eu, como primeiro filho homem do filho primogênito, de última hora mudei de nome e assumi aquele do meu avô. Uma herança constituindo em grandes sapatos a preencher. Mas também uma alegria para os pais e para tios corujas.

 

Entre a morte do avô e meu nascimento, outro evento, com implicações mais universais, tivera lugar. Em junho de 1967, deu-se a fragorosa derrota árabe na Guerra dos Seis Dias. Em tão pouco tempo, Israel valera-se de uma mentira que viraria mito prevalente, a de uma legítima defesa preventiva, para destruir os exércitos árabes e ocupar novos territórios que incluíam o que faltava para perfazer a totalidade da Palestina histórica.

 

À luz de como eu ainda me sinto hoje, quando penso nessa derrota somada a todo um século de derrotas, posso sentir como algo sólido a sensação de impotência que deve ter se abatido sobre esse entorno familiar de árabes orgulhosos e politizados. E essa é outra herança que me coube, nascida de uma longa história que me antecedia, mas que me revestiu assim que saí do ventre.

 

Desde então, vivo em revolta, não só contra a impotência, esculpida a golpes de derrotas sucessivas, mas também contra a injustiça, dupla injustiça, senão múltipla.

 

Uma injustiça que se poderia dizer primária está localizada na tragédia que atinge partes dos povos árabes e a totalidade do povo palestino: é a ocupação, a emigração forçada, a limpeza étnica, o regime de segregação, a violação diuturna dos direitos fundamentais dos indivíduos e um esforço contínuo de apagamento de toda uma história e de toda a identidade de um povo.

 

A injustiça que se soma a essa é a cegueira que acomete boa parte do mundo, que não consegue enxergar a opressão que se dá sob seu nariz, e não consegue enxergar a contradição de quem se vende como democracia enquanto, para usar uma imagem atual, mantém o joelho firmemente apoiado sobre o pescoço do “outro”. Talvez seja mesmo algo pior do que cegueira, talvez se trate mais de um voltar o olhar para não ter que ver ou poder fazer de conta que não se vê.

 

É, na verdade, a participação coletiva num conjunto de mentiras que Israel e seus apoiadores alimentaram ao longo das décadas: a de uma ocupação temporária, a de tudo justificar como luta contra o terrorismo do “outro” bárbaro, a de disposição para a paz e de honestidade nas negociações, e toda uma infinidade de outras que acompanham e sofisticam o processo de desnudamento dos palestinos de sua condição de povo.

 

Assim, para quem se revolta, são duas as íngremes montanhas contra as quais se deve lutar, tentando fazer subir as pesadas pedras: a da tragédia concreta que se abate sobre os indivíduos e os povos, e a daquela outra, não menos concreta, do véu espesso que impede que nos chegue a visão da injustiça e impede que nos cheguem os gritos de quem sofre.



1967
05/06/2020

 

Não tenho memória do tempo de meu nascimento.

 

Com o tempo, no entanto, fui me entregando a esta tendência – não sei se ela atinge a todos, a muitos, ou a alguns poucos de nós – de estabelecer ligações entre a nossa vinda ao mundo e outros grandes eventos que o agitaram no mesmo momento ou lugar.


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