Leia íntegra da entrevista com especialistas sobre a crise palestina


ANDREA MURTA

08/10/2006



Desde que o braço político do Hamas assumiu o Parlamento palestino, a divisão de poderes com o Fatah ­­partido ligado a Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP)­­ tem causado conflitos entre os dois grupos.

O Hamas, diferentemente do Fatah, não reconhece o Estado de Israel e prega sua destruição. O governo israelense também não aceita o governo do Hamas, e interrompeu o repasse de dinheiro aos palestinos ­­piorando a crise financeira palestina.

Dois especialistas em Oriente Médio consultados pela Folha Online, Salem Nasser, 37, doutor em direito internacional pela USP (Universidade de São Paulo) e professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e Samuel Feldberg, 50, cientista político e professor do curso de relações internacionais da USP, avaliam que a crise não deve terminar logo, mas descartam a dissolução do Parlamento ­­ameaça feita nesta semana pelo presidente da ANP.

Leia a seguir íntegra da entrevista concedida à Folha Online.

Folha Online ­ Quais as principais razões para o conflito entre Hamas e Fatah?

Salem Nasser ­ Em primeiro lugar, não há novidade na divisão entre facções palestinas na luta pelo poder. Este é um fator de enfraquecimento para os palestinos.

Outro aspecto que eu considero relevante é o problema real da crise econômica e de capacidade de governar a sociedade palestina ­­que em grande medida é fruto do boicote que os palestinos estão sofrendo. Esse enforcamento financeiro, que foi adicionado ao que eles já sofrem no dia­a­dia pela ocupação israelense, tinha tudo para criar uma crise de revolta interna.

Uma das razões para fazerem o embargo econômico é a criação de condições para que o Hamas caia. As forças externas que querem minar o Hamas se unem numa combinação de interesses com o Fatah, que perdeu as eleições democraticamente. Essa crise acaba transbordando para confronto físico e armado muito facilmente.

Samuel Feldberg ­ A crise é basicamente uma disputa por poder e pelos recursos gerados pela administração dos territórios controlados pela ANP (Autoridade Nacional Palestina).

É também resultado de uma política de Israel de autorizar e até estimular o crescimento do Hamas. A estratégia era vista uma forma de enfraquecer a OLP

(Organização pela Libertação da Palestina). Obviamente, os israelenses devem estar agora reavaliando os resultados dessa sua estratégia que, no mínimo, permitiu o crescimento do Hamas. Eles não esperavam os conflitos que estão acontecendo agora.

Folha Online ­ Quando o Hamas era oposição, até o começo deste ano, não se viam os confrontos que estão acontecendo hoje. Por quê?

Nasser ­ O Hamas sempre se colocou na posição de um grupo de resistência à ocupação israelense e luta contra Israel, e até fazia questão de não participar da política palestina. Essa decisão de participar da política é recente. A vitória, se acreditarmos nas previsões anteriores, teria sido uma surpresa até para o próprio partido.

O problema agora é que com o Fatah perdendo espaço no poder, o que já se mostrava complicado entre os dois se agrava. Ambos têm sua parcela de legitimidade política, e têm grupos armados. Como o primeiro elemento da revolta dos últimos dias foi a demanda por pagamento de salários atrasados fica claro que o estrangulamento financeiro dos palestinos é um fator agravante.

Feldberg ­ As condições eram diferentes. Até o Hamas chegar ao poder, a ANP tinha um mínimo de condições de funcionamento. Havia toda uma prestação de serviços que funcionava, ainda que precariamente. Agora o território controlado pela ANP deixou de funcionar. A prestação de serviços básicos está ausente.

Em segundo lugar, as forças policiais armadas que estavam sob o controle da ANP e foram criadas pelo Fatah deixaram de receber remuneração e se tornaram "bandos armados", que não fazem mais parte do governo.

O novo governo contesta a legitimidade dessa força armada, que tenta então se impor. E existe também uma perda de legitimidade do Hamas, que não tem recursos para gerir o território. Há uma incapacidade do governo eleito de prover à população os serviços essenciais à sua sobrevivência e bem estar no dia­a­dia. O Hamas, que sempre foi muito atuante justamente nessa área de serviços básicos, suprindo as deficiências do governo, hoje não pode fazer o suficiente para atender a população. O que o Hamas fazia só servia como suplemento, mas uma complementação muito importante.

Folha Online ­ O presidente da ANP, Mahmoud Abbas, ameaçou dissolver o Parlamento caso não seja feito um acordo. Ele tem realmente poder para isso?

Nasser ­ Em princípio, legalmente, sim. Mas acho que o que interessa mais é que essa declaração faz parte de uma espécie de braço­de­ferro entre Hamas e Fatah. Eles estão numa disputa política. Há um movimento de retórica, de discursos fortes, e há muitas idas e vindas nas posições.

Os dois lados concordam que há necessidade de um governo de coalizão. Mas há muitas questões a serem resolvidas, como o reconhecimento de Israel. Esse me parece apenas um lance nesse jogo de retórica. E se hoje estão se enfrentando nas ruas, imagina o que vai acontecer se Abbas dissolver o Governo... Não acho que isso esteja tão perto de acontecer.

Feldberg ­ Formalmente sim. O problema é o que resultaria dessa dissolução. Nesses regimes, quem tem o poder para dissolver o parlamento normalmente convoca novas eleições, e a expectativa de quem convoca as eleições é vencê­las. Se o Fatah acredita que com isso poderia reverter o resultado das eleições anteriores, ele poderia dissolver o Parlamento. Mas eu não arriscaria uma aposta nisso. Ele está contando com o esgotamento da população, e corre o risco de somente renovar o mandato popular do Hamas.

Folha Online ­ O conflito seria diminuído caso Israel voltasse a repassar o dinheiro arrecadado com impostos aos palestinos?

Nasser ­ Sim, não tenho dúvidas. É preciso fazer um esforço para imaginar como é a vida nos territórios palestinos. Há descrições várias sobre isso, suas privações e humilhações, o fato de eles terem seus territórios controlados por exército de fora. O desemprego é fenomenalmente alto, há dificuldade de acesso a hospitais, a escolas... é uma população diariamente humilhada.

Uma boa parte do dinheiro que movimenta a sociedade palestina e dá algum respiro para a economia é justamente aquela dos salários da ANP, que estão bloqueados. Isso é uma receita infalível para a intranqüilidade social.

Mas o dinheiro dos impostos é uma quantia menor. O real problema está no dinheiro de ajuda externa com o qual se comprometeram outros países, e que também está suspenso. Há pessoas tentando encontrar caminhos para repassar o dinheiro de uma forma que tranqüilizasse os EUA, os europeus, etc. Mas, de toda forma, o estrangulamento econômico da sociedade agrava a crise.

Feldberg ­ Com certeza amenizaria a crise da população, mas não sei se resolveria o problema entre o Hamas e o Fatah, porque poderia haver uma intensificação da luta com uma disputa pelos recursos entre os dois partidos.

Uma coisa que certamente está na base desse conflito é que a estrutura governamental palestina está baseada em forças de segurança. Uma parcela da burocracia se apropriava da lealdade dessas forças através do pagamento de salários. Agora, com o bloqueio dos recursos, essas forças armadas não estão recebendo, e tentam reverter a situação através da violência.

Se começarem a canalizar recursos para o Hamas , provavelmente o dinheiro não seria encaminhado para as forças armadas de segurança, que foram criadas pelo Fatah. Provavelmente haveria um aumento da violência, porque haveria recursos disponíveis mas eles não seriam usados da forma como os grupos armados gostariam.

Folha Online ­ A disputa entre Hamas e Fatah pode trazer reflexos para o processo de paz entre palestinos e israelenses?

Nasser ­ Aqui há uma questão preliminar de como é que são julgados esses processos de paz. O próprio nome "processo de paz" é uma etiqueta interessante, já foi apadrinhado pelas grandes potências, todos falam no "mapa da paz"... Mas há pessoas que têm um olhar muito crítico sobre esse processo e crêem que na verdade isso é uma farsa, porque o resultado vem legitimar a dominação da população palestina.

Desde o começo deste "processo de paz" muita gente já dizia (e acho que a tese tem mérito) que a liderança palestina que o iniciou é na verdade escolhida pelo adversário, porque fariam as concessões que Israel e os EUA querem. Todas as exigências estão postas sobre os palestinos.

O Hamas tem uma posição muito diversa do "processo de paz". A solução que buscam é totalmente diferente. Isso não quer dizer que eles não fariam nenhuma concessão: o problema é que ninguém está disposto a reconhecer no Hamas, democraticamente eleito, um adversário legítimo, ainda que não seja o adversário preferido.

Feldberg ­ Israel provavelmente está muito feliz nesse momento de ver seus inimigos lutando entre si. Ninguém está falando de processo de paz algum desde que o Hamas assumiu.

Do lado palestino, estão preocupados com a disputa interna pelo poder; em Israel, as pessoas estão mais preocupadas com o Líbano, o Hizbollah e o Irã do que com os palestinos.

Folha Online ­ Há possibilidade de os países árabes intervirem de alguma forma na disputa Hamas­Fatah?

Nasser ­ Acho difícil, porque isso seria visto por Israel como intervenção num território que ele controla. Mas há uma influência, claro, no campo político. Há alianças que se desenham. Por exemplo, o fato de uma parte da liderança do Hamas estar na Síria pode ser pensado como um apoio. É uma aliança entre dois entes diferentes ­­um estado laico e um movimento islâmico, com raízes ideológicas cravadas na religião­­ mas que na luta contra Israel encontram interesses comuns.

Isso não acontece só do lado do Hamas e da Síria, mas também na aliança que persiste ­­e é muito mais profunda­­ entre EUA e Israel.

Feldberg ­ Acho que não. Os países da região tem seus próprios problemas. A maior parte dos países são conservadores, não vão apoiar o Hamas porque o vêem como um mau exemplo de fundamentalismo islâmico. Estou falando do Egito, Arábia Saudita, Jordânia... mesmo a Síria tem uma vinculação muito maior com o Hizbollah do que com a questão palestina ­­ainda que os líderes do Hamas vivam em seu território. Talvez haja um mínimo de envolvimento sírio, mas ele não seria um envolvimento formal.

Folha Online ­ Uma pesquisa divulgada na última terça­feira (3), feita pelo Jerusalem Media and Communication Center, aponta que se as eleições palestinas fossem hoje, o Fatah venceria o Hamas. O apoio ao Hamas já arrefeceu por parte da população? ou será que sua vitória foi devido a uma frustração com o Fatah e não a um apoio real?

Salem ­ Essa é uma pergunta que persiste desde a vitória do Hamas. Muita gente resolveu ver na vitória essencialmente um voto de desconfiança ao Fatah, considerado corrupto. Mas se negligenciou um outro aspecto que na minha opinião não passa em branco: houve também uma punição ao Fatah por não avançar na questão nacional do conflito com Israel.

É preciso voltar às pesquisas anteriores à eleição. Ninguém tinha previsto que o Hamas ia vencer. Isso joga alguma dúvida sobre o funcionamento dessas pesquisas. Uma outra coisa é também reconhecer o efeito que as coisas tem sobre a opinião pública. Quando as coisas vão mal a opinião pública muda, e não há como negar que as coisas vão mal nos territórios palestinos. É natural que as pessoas se voltem contra o Hamas.

Feldberg ­ Bom, hoje estamos vendo aqui no Brasil como essas pesquisas podem ser falhas.

Sem dúvida o resultado da eleição de janeiro foi fruto de uma frustração e não de um apoio às propostas do Hamas. Tanto é que de fato suas reivindicações e plataformas não aconteceram, não houve aumento de ataques suicidas. O que tivemos foi um voto de protesto contra a corrupção da ANP. Agora, se a população se deu conta de que esse voto de protesto não resolveu sua vida cotidiana, isso é outra coisa.

Efetivamente, se as pesquisas mostram que o Fatah poderia voltar a ser eleito... ok, mas a margem de vitória é muito pequena e Abbas pode perder novamente. Mesmo que houvesse uma reeleição formal dos representantes palestinos anteriores, deveria haver uma renovação das lideranças.

E, mesmo nesse caso, o Hamas não vai mudar de posição, pelo menos nas suas convicções básicas. Mas sempre corremos o risco de termos uma eleição sem resultados esperados.

Folha Online ­ Que prognóstico você faria da atual situação?

Salem ­ É sempre perigoso arriscar, mas eu não acho que vai haver uma guerra entre eles. A única saída é encontrar o equilíbrio, seja ele mais ou menos satisfatório. Ambos são extremamente fortes e presentes na sociedade palestina, então não há como fazer um deles desaparecer.

A longo prazo, o tema central não é o equilíbrio entre esses dois grupos, mas sim como ficará organizada a vida política dentro da sociedade palestina. E aí há muitas coisas a serem corrigidas e repensadas além da escolha deste ou daquele grupo.

Feldberg ­ Eu não sou muito otimista quanto a uma solução a curto prazo. Acredito que o conflito vá se estender antes de uma acomodação. Mesmo que haja um acordo, isso vai depender da abertura do Hamas para mudar sua posição, o que não parece próximo.

A sociedade israelense hoje também não está nada preocupada com o avanço das negociações com os palestinos. Isso deixou de ser prioridade para a parcela israelense da população. Além do conflito no Líbano, há atualmente uma diminuição da violência. Os ataques têm sido prevenidos. Isso cria uma sensação de segurança que pode ter resultados negativos.

Quanto mais Israel se acomoda, mais os palestinos se revoltam. É perigoso, porque a situação é um caldeirão que está prestes a entornar.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u100686.shtml


Links no texto:

Especialistas descartam dissolução do governo palestino
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u100687.shtml

Conflito global está em gestação no Oriente Médio, diz historiador
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u100674.shtml


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