Gaza edição 2014


Salem Nasser

11/07/2014



PUBLICADO: 11/07/2014 14:56 BRT
ATUALIZADO: 10/09/2014 06:12 BRT

Voltamos a contar os mortos em Gaza. Já passam dos 80, entre os quais ao menos 20 crianças. Os feridos contam várias centenas e as casas destruídas mais de duzentas. Depois da passagem de 2008 para 2009 e depois de 2012, a aviação israelense oferece mais um capítulo trágico que vem se somar ao drama cotidiano do cerco vivido por Gaza há anos.

Ainda assim, deste lado do mundo, tendemos a ouvir apenas as sirenes de alarme que assustam os israelenses e o terror que lhes causam os foguetes palestinos. E tendemos a acreditar que o começo e a explicação para os fatos está no seqüestro e morte de três colonos israelenses. De algum modo, vai se destilando a ideia de que a punição coletiva imposta pelos bombardeios ­ criminosa de acordo com o direito internacional ­ é resposta apenas razoável para o crime isolado. E inverte­se a ordem das coisas, transformando os foguetes em causa e as bombas israelenses em consequência.

Cabe quebrar o encanto desses mantras tantas vezes repetidos.

É preciso, para ver mais claramente, voltar ao menos até o momento em que a morte desde sempre anunciada da última rodada das chamadas negociações de paz se concretizou, trazida pelas mãos do governo israelense. A razão para o fracasso, fundamentalmente, está no fato de que Israel não está disposto a fazer qualquer concessão e prefere acreditar que o tempo trabalha a seu favor permitindo­lhe ampliara a tomada de territórios por meio dos assentamentos, aceitando o risco decorrente de manter indefinidamente o controle sobre os palestinos e seus territórios.

O que se seguiu ao fracasso foi a reconciliação entre Fatah e Hamas e a decisão de constituírem um governo de unidade nacional. O primeiro vinha se enfraquecendo por conta de ter apostado tanto na via da negociação sem poder entregar nada aos palestinos além da continuidade da ocupação e sua expansão. O segundo lidava com uma fragilização decorrente das revoltas no mundo árabe e de apostas errôneas que fizera em relação às consequências dos processos revoltosos. Acreditaram, com razão, que só havia esperança na unidade nacional.

Israel não tardaria a atacar essa unidade ­ e o pretexto, que seria encontrado de qualquer modo, acabou sendo o sequestro dos colonos. O ataque começou na Cisjordânia e logo transferiu­se para Gaza.

Com esta campanha, Israel pretende, pela enésima vez, desenraizar o Hamas e liquidar a capacidade de resposta dos grupos da resistência armada palestina.

Não é certo ainda, mas é bem possível, apesar de toda a destruição que ainda choverá sobre os palestinos, que esses objetivos israelenses se vejam mais uma vez frustrados. Tudo indica que a capacidade palestina de lançar foguetes mais capazes e mais certeiros foi incrementada nos últimos tempos. Também já se concebe a possibilidade de que o Hamas e outros possam até mesmo levar a batalha, também por mar ou por terra, ao próprio território israelense.

A afirmação do poder militar pode, assim, servir também a revelar os seus limites.

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